Pântano lusitano ao som de Paredes
Ando vai para uns anos com a suspeita de que a Argentina (e não o Brasil) é o nosso verdadeiro “país irmão”. Falo de uma certa maneira de encarar a vida... Que vos parece? Delírio? Temos o Atlântico todo de permeio, não é?
O que é certo é que, de quando em vez, lá me deparo com mais uma confirmação. Imperdível, esta mostra do Novo Cinema Argentino com sede no King, em Lisboa. (Não me pagam para fazer publicidade – o que é pena – mas como sou uma pobre alma abnegada, faço-a na mesma...) La Ciénaga (O Pântano) é um filme belíssimo e desalentado, exemplificativo também desta minha cada vez mais firme convicção. Quem, como aquelas personagens na tela, não se sente, neste nosso país, enclausurado, desalentado, sufocado, aprisionado por muros intransponíveis e milagres que só acontecem aos outros, nunca a nós? (A pergunta não se dirige, é claro, a filhas-de-ministros-de-negócios-estrangeiros.)
Roubo ao Público de há uns dias algumas citações da realizadora, Lucrecia Mantel (32 anos), sobre este filme e sobre os Argentinos. Ora vejam lá se tenho ou não razão: “Para mim, esta história foi sempre uma história sobre o desamparo. Sobre a existência humana. Mas nestes tempos em que vivemos na Argentina, quando sentimos que mesmo a educação já não nos garante felicidade, desprende-se do filme um sentimento mais político. É, claro, uma crítica à classe média do meu país.” (...) “Desde os anos 70 até hoje, a sensação mais concreta que marca os argentinos é a de um certo enfado em relação à política. Foi esse sentimento, que também é de desconfiança, que fez com que as pessoas sempre recusassem o engajamento. A minha geração tem, por isso, um sério conflito com valores como o da solidariedade. (...) O dilaceramento que marca 'O Pântano' é o sentimento de quem perdeu a vontade e a capacidade de controlar a sua vida. Daí a decadência das personagens, que é a decadência da classe média argentina.”
Imperdível, este pântano. Ide, pois, vê-lo. De qualquer modo, não lhe podemos fugir.
Tinha escrito os parágrafos anteriores ontem. Acabo de regressar a casa – fui ver mais um destes filmes: o também belíssimo Histórias Mínimas, de Carlos Sorin. Três histórias que se entrelaçam nos confins da Patagónia, três personagens embaladas, nada mais, nada menos, pelo som da guitarra de Carlos Paredes. Por que razão tal escolha musical não me surpreende?
Estão a ver como tenho razão?
