O homem da rua
Lembro aqui, a propósito deste belíssimo texto do Katraponga, aquele anúncio admirável em que, um a um, nos vão sendo mostrados cantos da cidade, vãos de escada, becos, com o nome, mas não a presença, dos que os ocupam diariamente.
Para mim, estas pessoas não são invisíveis, nem nunca o foram (não preciso do anúncio para que passe a aperceber-me da sua existência), mas não sei se seria capaz de ter o mesmo gesto do Katraponga. A minha reacção perante a miséria ou a dor ou tudo o que não compreendo, seja na primeira pessoa, seja na pessoa dos outros, é, quase sempre, o ficar paralisada... sou assim desde os quatro anos.
E depois tenho este defeito de achar que, ou se pode dar tudo, ou não vale a pena. Fico paralisada pela impotência. Está errado, eu sei. Não é que queira ser assim... mas é assim que reajo quase sempre. E nutro uma profunda admiração pelos que fazem alguma coisa antes que comecem a pensar demais. Penso demasiado e ajo pouco.
Hei-de mudar. E não é por ser Natal.
