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sexta-feira, janeiro 30, 2004

Fácil

Tem um sorriso fácil. É curioso como uma palavra pode carregar consigo tantas ironias, tantos sentidos tão depreciativos como erróneos. Fácil. Sorriso fácil. Trabalho fácil. Caminho fácil. Vida fácil. Fácil. No mar de confusões e de extremos em que a fama é tão fácil como o despeito, a facilidade encontra-se em território minado, híbrido, perigosíssimo, perigosamente disfarçado. Mas ela sorri com a facilidade de uma criança e não de uma estrela, essa facilidade inimitável, essa facilidade a que se convencionou chamar pureza.

É também fácil de perfurar, fácil de conduzir, fácil de magoar. A sua honestidade é fácil, assim como o escorrer dos sangues das suas feridas internas. Infelizmente para ela tais feridas não seguem o caminho clínico mais comum. Nada mais simples do que feridas na pele. Fácil. Entra-se em cena, contextualiza-se ou não consoante se quer fazer teatro ou apenas chocar, conforme se quer ferir apenas os olhos ou também as almas, faz-se um corte, sangra, muito pouco ou nada, estanca-se, desinfecta-se, cobre-se, crosta, coisa feia e áspera, coisa que cai e desaparece. Cicatriz. Já está. Fácil? Não. Para ela é insuportavelmente mais duro. As guerras interiores causam baixas e dores, órfãos e viúvos, e não há chefes de estado para nos acalmar as consciências e dizer-nos que estamos do lado do bem e que o bem vencerá, não necessariamente por ter razão, mas por estar superiormente armado. A menos que esteja armadilhado, acrescenta-se uma sílaba e já quem domina fraqueja e sente a sua vulnerabilidade, é fácil.

Ela está armadilhada. Pequenas bombas vão sucessivamente rebentando, pequenos incêndios deflagram e lambem a terra e exigem a água que mesmo escorrendo para fora os vai acalmando e adormecendo. O corpo dobrado em si mesmo, os joelhos flectidos, a cabeça entre os joelhos, as mãos sobre a cabeça, tão belas são as posições de desepero profundo quando se constroem, tão infinitamente humanas porque trágicas, os maiores problemas residem em desfazê-las, é aqui que as cenas são sempre cortadas. Como é possível sair de uma posição destas e manter-se coerente com a perenidade da tragédia e do desespero, como fazer de conta que eles desaparecem, e se eles desaparecem como lidar com a sua súbita ausência, com a súbita ausência do que antes nos definiu, como é que após um choro convulsivo e desesperado aquele que agora mesmo desesperava se ergue, vai à casa de banho lavar a cara e regressa à sua vidinha? Se poucos encenadores e realizadores souberam encontrar uma solução tão convincente e poética como o próprio problema, como se pode esperar que facilmente uma mera personagem o faça?

E a verdade acaba por ser apenas uma. Vivemos sós dentro de nós mesmos e não existe fuga possível, morremos sós e não existe fuga possível, ponto de chegada para tudo, ponto de partida para tudo, ponto de ajuste de contas com a própria solidão e com o verdadeiro amor, que naquela lança as suas raízes se o deixarem, tese e antítese, a esperança dentro do desespero, as várias mortes dentro da vida que nos animam a capacidade de nos parirmos novamente, de nos reinventarmos. Ela reinventar-se-á, quando o espelho lhe mostrar a beleza trágica dessa eterna solidão que eternamente a liga a cada outra personagem que por ela passa, a cada outro solitário caminho que com o dela se cruza. É fácil.

quinta-feira, janeiro 29, 2004

G'anda festa!

Matraquilhos


A paixão assolapada do Vítor puxa-me muitas vezes para esta mesa de matraquilhos. E nunca me arrependi. Convida-me a pensar sobre o que quero da vida, reconcilia-me com a minha tão ambiciosa falta de ambição. E este pequeno post com nome de maço de tabaco tem a felicidade lá dentro. Todinha.

quarta-feira, janeiro 28, 2004

Ide à janela, já! Olhai na direcção SW!

Pronto: agora é que é!
Anunciei a saída deste cd há uns tempos mas só agora saiu em Portugal.
Esqueci-me, precisamente, de que estamos em Portugal. (Sou tão ingénua, às vezes...)
Obrigatório ouvir, ter, ler, folhear, ver as fotografias...
E para aqui estou eu feita tonta a comover-me com a primeira faixa. (Quem a ouvir perceberá porquê.)
Mas todo o cd é maravilhoso. Todo!
(Com estes músicos, outra coisa não era de esperar.)



María Cristina Kiehr, soprano
Victor Torres, barítono

Stylus Phantasticus
Pablo Valetti, Amandine Beyer, violinos
Friederike Heumann, Sophie Watillon, violas da gamba
Eduardo Egüez, Dolores Costoyas, tiorbas
Marina Bonetti, harpa barroca
Dirk Börner, cravo e órgão

Parabéns a nós...

Anteontem o Blogue das Trutas atingiu as 10 mil visitas.
Desde já me penitencio perante todos aqueles que acharam que eu estava atenta ao site meter e que ia instalar aqui um sofisticadíssimo mecanismo de contagem crescente até ao 10.000.º visitante. A verdade é que... nunca mais me lembrei.
Prometo que, se não me esquecer e estiver para aí virada, faço essas mariquices quando chegarmos aos 100.000 visitantes. Daqui a duas semanas, portanto...
Um emocionado agradecimento a todos aqueles que já não sabem viver sem as Trutas.
[olhos rasos de lágrimas, voz embargada pela emoção.]

terça-feira, janeiro 27, 2004

Este dá cabo de mim...

É tão mauzinho, tão mauzinho e tão real, tão real...

Este, Vermelha?

Há dias em que, tomada de terror, não atendo o telefone.

Teléfono y vacío

Mientras suena el teléfono y anochece
en la habitación desierta
preparo mi cabeza de comediante para simular
la cobardía de toda una vida
ante un posible mensaje de terror.
No tengo respuestas. La época
creó parálisis ambiguas como esta.
Así crece el error de aquel que llama
apostando a un número muerto
y al crimen de esta omisión que organiza
un fracaso del otro lado de la línea.
¿Me alcanzará, sin embargo, el ajuste de cuentas,
a mí, vuelto de espaldas en la cama,
o inclinado hacia el plato de comida,
cobijando la coartada del sueño?
En alguna parte, el desconocido descubre
su propia apatía moral; escucha el timbre
que se pierde en la oscuridad
escribiendo una página ilegible: cae su rostro
melancólico y vano, dudando
entre aceptar la humillación del vacío
o romper objetos sin porvenir a su alrededor.
Mientras suena el teléfono a través de los años.


Joaquín Giannuzzi
(Falecido ontem, em Salta, aos 79 anos de idade. Um grande poeta argentino.)

Eu vi um sapo...

segunda-feira, janeiro 26, 2004

Não sei como dizer-te

Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
— eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
— E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
— não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço —
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,

que te procuram.


Herberto Hélder

(Excerto do poema «Tríptico», publicado em A Colher na Boca, 1961.)

domingo, janeiro 25, 2004

Cruzou a linha

Não acordou.

A linha

É estranho como há imagens que nos abalam tão inesperadamente. Um corpo coberto no chão junto a um automóvel desfigurado. Um animal morto na estrada. Uma criança demasiado infeliz ou demasiado estúpida para ser criança. E de repente um futebolista que sorri ironicamente a um cartão amarelo, os olhos abertos, o corpo em ebulição, o suor no rosto. E de repente as mãos nos joelhos, nada de estranho, e de repente a queda, de repente o abandono, o corpo inanimado desaba, a cabeça bate duas vezes no chão e ele já não está lá, se acordar não vai saber como adormeceu, se não acordar não saberemos se o soube.

Descobri um site precioso...

DOTeCOMe
. Foram relações de amizade que me levaram até lá e muito lhes agradeço por isso. Descobri um local de inteligênca, franqueza, sensibilidade e cultura, tudo isto, pasmem os mais incrédulos, misturado com boas doses de marxismo. Donc, c'est possible, senhores!


Porque cada homem é uma ilha exótica do conhecimento...

Para quem sofrer do mesmo mal-de-vivre que eu, deixo aqui a conclusão de um artigo de Fernando Penim Redondo, publicado já em Julho 1990 sob o título Do socialismo prematuro para o socialismo do futuro, na Vértice. Eu cá me queria parecer que não andava doido de todo... ou que pelo menos não era o único doido.

NOVO PAPEL DOS PARTIDOS REVOLUCIONÁRIOS

Os partidos revolucionários têm tradicionalmente desenvolvido dois tipos de acções:

- Organizar os explorados na sua luta defensiva contra as injustiças do capitalismo

- Perspectivar a destruição do capitalismo, a substituir por um regime dominado pelo proletariado. Este usará o seu poder para eliminar de vez a injustiça e a exploração.

Para tomarmos consciência, através de um paralelismo histórico, do significado de tal postura consideremos qual teria sido o sucesso de quem, na segunda metade do século XVIII, não só defendesse os servos da injustiça feudal como propusesse a socialização dos feudos como base produtiva de uma sociedade que, governada pelos servos, realizaria a justiça universal.

É claro que a organização e a luta dos oprimidos não só é justa como constitui um factor de aceleração da queda dos sistemas sociais caducos. Tal trabalho, que tem constituído a mais genuina fonte de orgulho e base da identidade dos partidos revolucionários não deve, de modo algum, ser abandonado.

O que se propõe é que seja complementado com uma nova visão do futuro que não seja passível de confusão com o Socialismo Prematuro. Também é necessário evitar qualquer confusão com a social-democracia, o que não parece difícil já que esta foge "como o diabo da cruz" de perspectivar o fim inevitável do capitalismo.

Tendo em conta o que acabamos de dizer, os partidos revolucionários deveriam integrar nos seus programas as seguintes linhas de força:

- Respeito rigoroso dos métodos democráticos tanto internamente como na actividade pública.

- Abandono de qualquer perspectiva vanguardista que signifique distinção, com base na condição de classe, entre os cidadãos enquanto fonte de legitimação do poder partidário e político

- Exercício, na prática, de um papel de vanguarda baseado na lucidez das análises e na validade das propostas. Esse papel nunca será auto-proclamado mas sim, eventualmente, reconhecido pelos destinatários da acção política.

- Apoio às transformações tecnológicas rumo ao Socialismo do Futuro. Combate a todas as formas de introdução da tecnologia que se façam com base em sofrimentos desnecessários.

- Reforço do trabalho junto das camadas que já hoje prefiguram, na sua actividade, as relações sociais do futuro

- Ajuda à formação de uma nova consciência social tanto a partir do sistema de ensino como pela acção política e cultural

- Antecipação das contradições da sociedade nascente por forma a combater, durante a sua formação, todos os desvirtuamentos e que impeça, na medida do possível
- confesso que não gosto muito desta medida para meta programática, mas enfim... - , a continuação da exploração sob novas formas.



CONCLUSÃO



O capitalismo não é só um sistema social gerador de enormes injustiças; o seu maior fracasso consiste em não ser capaz de pôr ao serviço da humanidade a força criativa de milhões de cérebros.

Obedecendo à lógica mesquinha do assalariamento não pode, apesar dos enormes meios tecnológicos de que dispôe, fazê-lo.

Lutemos pelo Socialismo que será como o abater de um dique que barra a inteligência humana.

Milhões e milhões de cérebros humanos, em cooperação, encontrarão soluções mesmo para os problemas que sempre nos pareceram eternos.

sábado, janeiro 24, 2004

Hummm...

Pronto... Consegui finalmente uma aberta! No entanto estou aterrorizada! Primeiro: não consigo aceder aos salmonetes e temo que o problema seja o "computermaster" (as Trutas compreendem o meu drama pessoal e familiar...). Segundo: Fiz o quiz e descobri que sou a Laranja!!! E agora?! O que é que eu faço?! Preciso de acompanhamento psicológico! Tornei-me uma gaja boa em cinco segundos! E tudo à distância de um clic!!! Não sei se consigo lidar com a minha nova aparência! Isto vai ser a morte da cirurgia estética...

P.S. Eu até escolhi a cor certa: Azul! O que correu mal? Foi aquela pergunta manhosa do Zilm, não foi?

Não havia necessidade de repetir o que toda gente sabia... ou será que havia?



Armas ilícitas iraquianas não existiam antes da guerra, afirma Inspector de Armamento
por RICHARD W. STEVENSON

24 Janeiro, 2004

WASHINGTON, Jan. 23 — David Kay, o inspector que liderou o esforço americano para encontrar armas proibidas no Iraque, disse na sexta-feira, após deixar o seu posto, que concluíu que o Iraque não possuía armazéns de armas biológicas ou químicas aquando do início da guerra.

Numa entrevista à REUTERS, Kay afirmou considerar agora que o Iraque tinha armas ilícitas no fim da guerra do Golfo, em 1991, mas que a consequente combinação das inspecções das Nações Unidas com as próprias decisões iraquianas "as fez desaparecer".

Questionado directamente sobre se estava a afirmar que o Iraque não possuía quaisquer grandes armazenamentos de armas químicas ou biológicas, Kay respondeu, de acordo com as transcrições da entrevista gravada tornadas públicas pela REUTERS, "Sim, está correcto."

O Dr.Kay não respondeu às chamadas telefónicas nem às mensagens de e-mail do New York Times.

(...)

sexta-feira, janeiro 23, 2004

Kokako

Não é um refrigerante do Lidl, é um pássaro da Nova Zelândia que eu descobri ao fazer uma tradução para a Disney. Carreguem no play e fechem os olhos. Boa viagem.

Comunicação oficial

A greve aos salmonetes convocada pelo MOCHAT teve uma adesão absolutamente incipiente, donde se conclui que os dirigentes da dita organização já não podem viver sem a Truta.

Disse.

Ah! Ah! Ah! Estes tipos matam-me!

Audición comparada: 4'33'' de John Cage

He pensado que una crítica comparativa de las grabaciones clásicas de la obra podría ayudar a otros oyentes a conocer el meollo de 4'33''. Ha sido un gravoso ejercicio el reducir el campo a cinco principales contendientes, pero aquí va…

1. Philharmonia Orchestra. Dirige Otto Klemperer (EMI 4-33001)

Una de las últimas sesiones de Walter Legge con Klemperer, escrupulosamente preparada por Reginald Goodall para el viejo maestro, un hecho que resultará evidente a cualquiera que conozca la monumental grandeza de concepción y la gravedad aterciopelada de la ejecución. Asumido que se puede optar por un tiempo lento –esta debe ser la 4'33'' más extrema nunca grabada– la de Klemperer continúa siendo una interpretación de insuperadas profundidad y espiritualidad.

2. New York Philharmonic Orchestra. Dirige Leonald Bernstein (Sony Classics ‘Royal' Series 4-33002)

La fantástica categoría de la obra maestra de Cage es demostrada por la lectura de “Lenny”, bien diferente en tono y textura de la de EMI. Sostener, dotar de significado y contener en un enorme puño la obra, lleva a un completo 4'32'' con los tempi de Klemperer. La interpretación de la NYPO es deslumbrante, y aunque el aliento urbano de Bernstein pueda resultar demasiado agresivo para algunos, su 4'33'' permanece como una piedra miliar, a pesar de la habitual acústica reverberante de Sony. El gato blanco en medio de una tormenta de nieve pintado por el príncipe Carlos en la portada ofrece a esta edición un encantado añadido a mitad de precio.

3. Chicago Symphony Orchestra. Dirige Pierre Boulez (DGG 43303)

Otra lectura controvertida. La precisión de Boulez –ajustada a las marcas del metrónomo de Cage a un milisegundo– puede impresionar a algunos y dejar fríos a otros. Puede que haya un ocasional sentido de frialdad clínica en su acercamiento, un sentimiento de que él está auto-conscientemente probando una tesis más que respondiendo emocionalmente a la obra maestra de Cage; pero no se puede negar que presenta las texturas en un modo que nos hace escuchar cosas en la partitura de Cage que no habíamos oído antes. Una grabación admirablemente silenciosa.

4. English Baroque Soloists. Monteverdi Choir. Dirige Sir John Eliot Gardiner (Archiv 43-304)

He aquí uno de los hitos de la HIP (Historically Informed Performance). El uso de instrumentos originales de la década de los sesenta y la afinación baja (A=433) otorga especial autenticidad a la brillante y encantadora prestación de Gardiner. Algunos pueden encontrar superficial su respuesta a esta música, incluso poco seria; pero su luz –quizás incluso de gas–, textura y ritmo contagioso provocan más que maquillan cualquier falta de gravedad en la concepción. Extremadamente recomendable como una antítesis (o antídoto) a la monumentalidad de Klemperer.

5. Charlotte Church. Wiener Philharmoniker. Dirige Sir Simon Rattle (Decca CAC 433-005)

Algunos clasificarían la versión vocal de la obra maestra de Cage (arreglada por Andrew Lloyd-Weber bajo la supervisión de su asesor bancario) como crossover barato. Y eso puede ser; pero para ser justo, si todo el crossover fuese tan inofensivo como esto, el mundo de las grabaciones sería un lugar más feliz. La impecable dirección de Rattle otorga un nota de artística credibilidad al procedimiento, y algunos detalles de su generalmente sencilla lectura son serios, aunque provocadores. Algo es seguro: este 4'33'' es la mejor grabación que la super-estrella del canto ha hecho jamás.

¿Alguien más tiene una versión favorita para cotejar con las anteriores?

(in www.mundoclasico.com)

quarta-feira, janeiro 21, 2004

Gosto bastante destes gajos

É tão bom perceber que há gente nova, com qualidade, que opta por trazer algo novo à música portuguesa - com todas as dificuldades que isso implica - em vez de se limitarem a fazer a musiquinha que já toda a gente faz...

Ok, demoraram uns anitos a editar o primeiro disco, mas o resultado final é bastante bom (bravo, Sloppy Joe)!
O album chama-se Flic Flac Circus e aconselho-o a quem goste de reggae, ska, dub e de gajas giras a cantar bem.

terça-feira, janeiro 20, 2004

Toda a ciência

A imagem da semana, de Rodrigues, no Crítico, fez-me lembrar deste poema de Eugénio de Andrade:

A Arte dos Versos

Toda a ciência está aqui,
na maneira como esta mulher
dos arredores de Cantão,
ou dos campos de Alpedrinha,
rega quatro ou cinco leiras
de couves: mão certeira
com a água,
intimidade com a terra,
empenho do coração.
Assim se faz o poema.

Pró-pois...

Ontem não vi o mal-fadado debate sobre o aborto, na RTP1, embora tenha passado a noite a receber mensagens desesperadas da Mada. Seria um crime estragar com televisão e hipocrisia um serão de calma, lareira, cão grande e (poucas) pessoas de quem gosto muito. Mas não resisto a lincar-vos a este post do Barnabé e aos seus comentários. Acho muita graça àquele dedicado à gente do PP: impedir que um aglomerado de células se desenvolva e venha a tornar vida não pode ser, quanto a mandá-los para a guerra, tudo bem. "Cá matar células não, do que a gente gosta é de matar homens feitos".

Pró-vida... pois.

O Eugénio

Não me esqueci dele ontem...
A minha homenagem é deixar aqui um linque para uma entrevista bastante interessante concedida em 2001 ao sempre excelente suplemento "Babelia", do El País.

(Tenham paciência os não muito dados às línguas - está, obviamente, em Castelhano!)

segunda-feira, janeiro 19, 2004

Parabéns!


Eugénio de Andrade, 81 anos hoje.

Oiço falar

Oiço falar da minha vocação
mendicante e sorrio. Porque não sei
se tal vocação não é apenas
uma escolha entre riquezas, como Keats
diz ser a poesia.
Desci à rua pensando nisto,
atravessei o jardim, um cão
saltava à minha frente,
louco com as folhas do outono
que principiara e doiravam
o chão. A música,
digamos assim,
a que toda a alma aspira,
quando a alma
aspira a ter do mundo o melhor dele,
corria à minha frente, subia
por certo aos ouvidos de deus
com a ajuda de um cão,
que nem sequer me pertencia.

Ary III - Foi há vinte anos

Não parava. Nunca parou. Não há memória de o Ary vez alguma ter parado. A não ser agora. Por motivos de força maior.


Baptista-Bastos, Crónica Necrológica, Diário Popular, 19 de Janeiro de 1984

Ary II

A Luva

O aceno penumbra da tua mão camurça
a lágrima em branco do teu rosto livro
a página momento que o teu gesto segura
por detrás do vidro.

Ary I

Lisbon by night

Sexofone saxofome
aqui jazz a humanidade
sepulcro de pedra pomes
duma pseudo euro-cidade.

Antro de feras criadas
entre manteiga e obuzes
cansadíssima corrida
de modernas avestruzes.

Na cave do cio soa
um rumor acutilante
faca pássaro que voa
em seu espaço percutante.

Sexofone saxofome
agulha de tédio e ritmo
ninguém ouve ninguém come
a noite não tem princípio.

Mancebos de longas tranças
enforcados em gravatas
vão depauperando as danças
com os pés aristocratas.

Megalómanos artistas
ademaneiam poemas
enquanto velhas coristas
coçam glórias e eczemas.

Um canceroso rebenta
seu tumor de nicotina.
Uma puta seca tenta
suicidar a vagina.

Sexofone saxofome
o banqueiro está de esperanças
foram-lhe ao rabo do nome
mais de um milhão de crianças.

Seus olhos de rã repleta
batraqueiam um efebo
sua pupila secreta
rumina bolas de sebo.

Enquanto a noite esfaqueia
o ventre das virtuosas
senhoras com pé de meia
que bebem água de rosas.

Das tripas lhe faz um nó
dos ovários um apito.
Estou tão só que me faz dó
solfeja seu pito aflito.

Sexofone saxofome
um continente castrado
vai desesperando de um lume
nunca mais incendiado.

Fenícios celtas e godos
odeiam seus próprios corpos.
Agora vingam-se todos
do peso de estarem mortos.

Mortos da morte mais lenta
que é possível conceber-se
dilacerada placenta
de estando morto nascer-se.

Salmonetes Reloaded

Os nossos queridos salmonetes voltaram. Ainda não estão lindos e cor-de-rosa, como nos habituámos a vê-los, mas estão a ser feitos todos os esforços para recuperar o seu visual elegante e fashion.
Os comentários deixados nos salmonetes alternativos estão igualmente a ser recuperados.

sábado, janeiro 17, 2004

Artes e partes

Tenho seguido atentamente e com muito agrado as dissertações do Crítico sobre o projecto de Siza Vieira para Alcântara e fico a pensar que gostaria que outros leitores de esquerda lessem o Crítico com mais atenção. Não estamos sempre de acordo, mas o Crítico é o tipo de conservador que pensa - são cada vez menos os que pensam, em todos os quadrantes -, que investiga, que se documenta, que não gosta de falar por falar, que gosta do que gosta e abomina o que não gosta. E o gosto nada tem a ver com cores, clubísticas ou políticas - por vezes parece-me que a diferença é nenhuma -, o gosto é uma questão pessoal, nasce de educação, formação, percursos e afectos.

Tendo eu deixado aqui um manifestozito que se insere neste tema, senti-me impelido a esclarecer: a desova sob o título de Ganda testa é sobre o cartaz e apenas sobre o cartaz da Rua Brancaamp. Primeiro porque considero a propaganda de Santana Lopes na CML uma ofensa à minha inteligência e à minha bolsa de alfacinha, segundo porque, e até o Crítico há-de concordar comigo, o argumento é, para não variar, absolutamente falacioso e risível. Sobre o projecto em si não me pronuncio por falta de informação concreta, embora deva sublinhar que o conceito de uma construção em altura numa zona ribeirinha me coloque muitas reservas, ainda que seja admirador do Siza... o facto da Gare do Oriente ser do Calatrava também não me impede de reconhecer que para abrigar da chuva e do vento aqueles que ali esperam pelo comboio, a estética não é suficiente. Além disso, abrir um precedente destes nesta cidade e neste país pode ser o suficiente para daqui a uns anitos, ao invés de se conseguir ver o rio de praticamente todos os miradouros de Lisboa, apenas se ver uma sucessão de imponentes "escarros", numa e noutra margem.

Por último, e mudando de assunto, tenho de agradecer o post Mandar à merda, que muito gozo me deu a ler. Vamos lá responder ao novo xéllenge, ó Crítico. Fico à espera da visita...

Até choro com isto...

The attacks of September 11th changed America - and in President Bush's words, "in our grief and anger we have found our mission and our moment." President Bush declared war against terror and has made victory in the war on terrorism and the advance of human freedom the priorities of his Administration. Already, the United States military and a great coalition of nations have liberated the people of Afghanistan from the brutal Taliban regime and denied al Qaeda its safe haven of operations. Thousands of terrorists have been captured or killed and operations have been disrupted in many countries around the world. In the President's words, "our Nation - this generation - will lift a dark threat of violence from our people and our future. We will rally the world to this cause by our efforts, by our courage. We will not tire, we will not falter, and we will not fail."

Grandes verdades...

Ora vão ao google, escrevam "miserable failure" e cliquem em "sinto-me com sorte". Agradecimentos ao Pickpocket.

sexta-feira, janeiro 16, 2004

Mais poesia da boa

Maneiras d'agradar

Dar-te um beijo
satisfaz o meu desejo
de te tocar
esperei tanto tempo
p'ra te abraça-har
p'ra te enrolar em mim

Aconteceu, tornou-se realidade
o teu corpo
tudo em ti era verdade
mas já passou
e no vazio caí.

Até que chegou o momento
Cada hora é um tormento
Mas só te peço para ficar
Ainda estás a tempo de mudar
esse olhar que existe em ti
fica ao pé de mim
só canto para te agradar
tens de mudar.


Intérpretes: Susana Félix e João Pedro Pais


Amigos, dêmos todos as mãos e sintamos isto em conjunto...
Fogo, esta letra bateu-me!!

[Ar compungido e olhos rasos de lágrimas. Coração dilacerado pela arte.]

Outro xéllenge

Em reposta às variadas e simpáticas reclamações que recebi no post Mandem-me à merda, lanço aqui um novo xéllenge:

Quem descobrir de que espectáculo se trata tem direito a dois convites para uma noite à sua escolha - isto, perdoem-me, só entre os nossos visitantes mais assíduos e aqueles que fizeram o favor de me mandar à merda, já que não tenho a certeza dos convites que tenho para a carreira da peça e não quero dar por mim a pagar bilhetes de castigo para malta que não conheço -, ou seja, de quinta a domingo até 29 de Fevereiro - ooops, domingo é matinée, mas é bom pós putos...

Vá lá Katraponga, então adivinhavas para onde é que eu ia viajar a seguir e não adivinhas que espectáculo é? Vais ter é de apanhar o Alfa...

E já chega de pistas.

É favor responder para o meile das trutas, não queremos as respostas a circular por aí, pois não?...

Estreei

Primeiro a excitação. Depois o frio na barriga e a vontade de fugir para qualquer lado onde não nos digam que faltam cinco minutos para entrar no palco. Expira, expira, lembra-te do Linhares, o ar entra sempre, preciso é deitá-lo fora. E a voz, que parecia tão brilhante há duas horas e agora luta para chegar cá fora. E o corpo que parece que só quer mandar, nunca obedecer. E um ensaio para os técnicos em que há um técnico que não se digna a aparecer.

E depois uma sessão de aquecimento ao som das Doce e da Cândida Branca-Flôr e da Manuela Bravo, provavelmente a primeira vez em que vi nove doidos fazendo abdominais enquanto batiam palmas, cantavam e riam. E os colegas que são amigos ou os amigos que são colegas. E encenador, coreógrafo e director musical que sugam tudo o que temos para dar e depois nos fazem sentir como se tivéssemos acabado de subir o Everest - ou o Pico - extenuados e felizes.

E finalmente os gongos. O público na sala, em burburinho, amigos, família, colegas de profissão, totais desconhecidos, todos ali, prontos a serem encantados pela música, a matemática, a diversão e a emoção. E a vida a acontecer no palco. E eu a dar tudo de mim e a receber tanto, tanto. E os autores da peça, dois norte-americanos completamente estupefactos com tudo o que nós vimos naquilo que eles criaram. Felizes. Agradecidos. Como nós a eles.

É algo que não se explica, o teatro. Somos nós inteiros e não é nada.

quinta-feira, janeiro 15, 2004

Mandem-me à merda!

Estreio logo à noite...

quarta-feira, janeiro 14, 2004

Estes japoneses são...

... é que eu já nem sei que nome lhes chamar. (suspiro)

terça-feira, janeiro 13, 2004

Pois é...

Defesa da democracia e da paz, olé!

Manoel de Barros, na Tabacaria

Gosto deste blogue do outro lado do oceano.


(Para quem não conhece Manoel de Barros, ver AQUI.)

A verdadeira interpenetração bloguística!

Rodrigues e o Crítico são mesmo queridos!

Salmonetes

Os nossos lindos salmonetes cor-de-rosa decidiram fazer greve.
Enquanto as negociações não estiverem concluídas e os serviços não estiverem a funcionar com normalidade, as Trutas vão facultar um serviço de salmonetes alternativos. São mais feiões, as suas cores não condizem com as do blogue e têm menos bonecos, por isso esperamos que a solução seja muito, muito provisória.

segunda-feira, janeiro 12, 2004

The Amazing Trout Challenge

O momento pelo qual todos aguardavam chegou, finalmente, e as Trutas vêm agora divulgar os resultados do The Amazing Trout Challenge.
Após semanas de análise atenta e cuidada dos milhares de participações que até nós chegaram, depois da ajuda de todos os nossos familiares e amigos, que fizeram vários serões - prejudicando, deste modo, a sua vida social e sentimental (parece que as olheiras profundas e cara macilenta do cansaço não atraem ninguém) - ajudando-nos nessa hercúlea tarefa a que nos propusemos, depois de termos ficado várias vezes com o The Amazing Trout Mail entupido com participações vindas dos mais diversos pontos do globo, as Trutas vêm, por este meio, anunciar que...

... ninguém venceu.

Ninguém fez corresponder todas as Trutas à respectiva fotografia. Nem mesmo os familiares e amigos que nos ajudaram na triagem dos postais e na análise das participações. Ninguém. Alguns, poucos (Animal, A.B.Caldeira), ainda se aproximaram do resultado correcto, mas não existe um vencedor.

Ainda assim, como as Trutas são magnânimas e generosas, decidimos presentear os nossos leitores com os resultados do Xélenge. Para vosso deleite.

E tão fácil que era, tão fácil...

E agora, poesia da boa!

Ziguezague até casa era noite na vila
motas aceleraram, fiz figura de tola
Acerto na fechadura, era um alvo preciso
E é preciso
De dar à certeza o benefício da dúvida


Não sei quem é que escreveu isto, mas quem canta é a Susana Félix.
Amigos, dêmos todos as mãos e meditemos um pouco sobre a música que vende em Portugal.

La Voix

Mon berceau s'adossait à la bibliothèque,
Babel sombre, où roman, science, fabliau,
Tout, la cendre latine et la poussière grecque,
Se mêlaient. J'étais haut comme un in-folio.
Deux voix me parlaient. L'une, insidieuse et ferme,
Disait : "la Terre est un gâteau plein de douceur ;
Je puis (et ton plaisir serait alors sans terme !)
Te faire un appétit d'une égale grosseur."
Et l'autre :"Viens ! oh ! viens voyager dans les rêves,
Au delà du possible, au delà du connu !"
Et celle-là chantait comme le vent des grèves,
Fantôme vagissant, on ne sait d'où venu,
Qui caresse l'oreille et cependant l'effraie.
Je te répondis :"Oui ! Douce voix !" C'est d'alors
Que date ce qu'on peut, hélas ! nommer ma plaie
Et ma fatalité. derrière les décors
De l'existence immense, au plus noir de l'abîme,
Je vois distinctement des mondes singuliers,
Et de ma clairvoyance extatique victime,
Je traîne des serpents qui mordent mes souliers.
Et c'est depuis ce temps que, pareil aux prophètes,
J'aime si tendrement le désert et la mer ;
Que je ris dans des deuils et pleure dans les fêtes,
Et trouve un goût suave au vin le plus amer;
Que je prends très souvent les faits pour des mensonges,
Et que les yeux au ciel, je tombe dans des trous.
Mais la voix me console et dit : "Garde tes songes :
Les sages n'en ont pas de plus beaux que les fous!


Charles Baudelaire

THE AMAZING TROUT QUIZ RULES!!

Cumpre-me informar-vos que, em apenas dois dias, já houve 91 patetas a responder ao quiz!
Uma vez que houve reclamações (parece que a Truta Laranja é a truta dos sonhos de quase toda a gente e ainda há quem ache isso estranho!!), saiu uma nova versão do quiz, melhorada e devidamente certificada pelo Governo Civil de Lisboa.

Para uma segunda opinião acerca da Truta dos vossos sonhos, é favor clicar AQUI.

domingo, janeiro 11, 2004

L'invitation au voyage

Mon enfant, ma soeur,
Songe à la douceur
D'aller là-bas vivre ensemble,
Aimer à loisir,
Aimer et mourir
Au pays qui te ressemble.

Les soleils mouillés
De ces ciels brouillés
Pour mon esprit ont les charmes
Si mystérieux
De tes traîtres yeux,
Brillant à travers leurs larmes.

Là, tout n'est qu'ordre et beauté,
Luxe, calme et volupté.

Des meubles luisants,
Polis par les ans,
Décoreraient notre chambre,
Les plus rares fleures
Mêlant leurs odeurs
Aux vagues senteurs de l'ambre
Les riches plafonds,
Les miroirs profonds,
ah! la splendour orientale
Tout y parlerait
À l'âme en secret
Sa douce langue natale.

Là, tout n'est qu'ordre et beauté,
Luxe, calme et volupté.

Vois sur ces canaux
Dormir ces vaisseaux
Dont l'humeur est vagabonde;
C'est pour assouvir
Ton moindre désir
Qu'ils viennent du bout du monde.

Les soleils couchants
Revêtent les champs,
Les canaux, la ville entière,
D'hyacinthe et d'or;
Le monde s'endort
Dans une chaude lumière!

Là, tout n'est qu'ordre et beauté,
Luxe, calme et volupté.


Charles Baudelaire

sábado, janeiro 10, 2004

TSF

Desde a tão falada e orgulhosa remodelação que ando para fazer um post à memória da TSF. Agora já não é preciso.

Ganda testa!

O que diziam em 2000 os que agora falam contra as construções em altura? Este lindo slogan está em mais um cartaz na Rua Bramcaamp, um cartaz que apresenta as Twin Towers em Sete Rios, projecto aprovado pelo anterior executivo camarário.

Mas não há ninguém que explique ao coitado do Santana a diferença entre o impacto urbanístico de construções em altura integradas numa zona central da cidade e o de um ou mais arranha-céus à beira do Tejo? Será que ele já foi a Sete Rios? Será que ele já foi a Alcântara? Será que aquela testa tão alta só serve mesmo para enfeitar?

Ganda teste!



Parabéns, saiu-te o Manel da Truta! O elemento mais
brilhante, lindo, arguto, perspicaz,
inteligente, saliente, imarcescível e dread
deste blogue.


Que Truta gostarias de ser?
brought to you by Quizilla


E juro que não fiz batota...

Finalmente, um cuíze como deve ser!

Cansada de quizes que me diagnosticaram as mais diversas psicopatologias (sou esquizóide, anti-social, narcisista e obsessiva-compulsiva), revelaram que sou canibal e como os meus amigos ao jantar, assadinhos no forno (ao menos não sou, como a Vermelha, casada com uma marmota, conforme revelou esse mesmo quiz), que sou o motoqueiro dos Village People e, ao mesmo tempo, sou parecida com a Monica Bellucci (I wonder how...), deixo-vos o cuíze pelo qual todos anseiam: The Amazing Trout Quiz!!

Descubram quem é a Truta dos vossos sonhos AQUI!

sexta-feira, janeiro 09, 2004

Pechincha

Olhem que eu nem queria acreditar:

Laranja, a 38 cêntimos o quilo no Intermarché!


A moça ainda por cima é levezinha... digam lá que não é uma pechincha!

quinta-feira, janeiro 08, 2004

Mais... ils sont affreux, ces costumes!

Fui ontem à penúltima récita de Le vin herbé, obra de Frank Martin dirigida por João Paulo Santos e encenada por Luí­s Miguel Cintra no Teatro Aberto. Gostei. Gostei de ver um trabalho sério e escorreito. O trabalho musical é limpo e correcto, embora sem rasgos, o maestro seguro, a orquestra também. A encenação é simples e depurada - o espectáculo, aliás, assume-se mais como uma leitura encenada do que como uma encenação final, o que até resulta coerente com uma certa qualidade hermética da música. O elenco é equilibrado, os intérpretes, nomeadamente Ana Ester Neves, Mário Redondo, Luí­s Rodrigues e João Miguel Rodrigues, foram bastante competentes, vocal e cenicamente - um certo desní­vel, em ambos os aspectos, foi a performance de Ana Serôdio como Isolda das Brancas Mãos. Os protagonistas, Dora Rodrigues como Isolda, mas sobretudo o Tristão de Marco Alves dos Santos, entregaram-nos todo o desejo e toda a tensão deste mito sempre revisitado, com contenção e intensidade dramática notáveis.

No aspecto vocal, todos os cantores são prejudicados pela estranhí­ssima acústica da Sala Vermelha. Ó senhores! Então gasta-se um porradão de dinheiro para se fazer de raiz uma sala - com este tipo de repertório já previsto, ainda por cima - e a acústica é esta, com perdão da palavra, merda? Será que o génio que projectou o Grande Auditório da Gulbenkian era único no mundo?!

Plasticamente - uma desilusão. O grande, enorme, assassino problema - os figurinos. Os homens de casaca, assumindo a versão concerto - hum, imaginativo... As mulheres embrulhadas em deselegantes vestidos de veludo mais ou menos vermelho - ou melhor, uns vermelhos, outros encarnados. É pena. Bem sei que a obra nasce de um coro do qual saem os cantores que vestem cada personagem, mas não era preciso pôr as mulheres quase tão mal vestidas como as do Coro Gulbenkian. Muito antes de todos havia, pelo menos, os coros gregos. Podia não ser muito original, mas pelo menos havia alguma coisa que ligasse o que se veste ao pathos que tão bem se atravessa. Assim é ingrato pelo menos para quem vê. Se não o é para quem faz.

Enfim, no meio de tudo isto, saí­ munto sastifêtinho com o que vi. Preciso é não parar, não parar...

Desperdício de recursos

Rui Rio - nome perigosíssimo para os disléxicos - afirma que criou infraestruturas e resolveu problemas no Porto, "apesar do buraco financeiro que também está a ser resolvido". Bem sei que não é à UE que ele presta contas, mas não seria possível este senhor dar uns cursos de formação aos membros do governo, pelo menos aos do seu próprio partido?

As gordas de hoje

"PSD Propõe Limites à Liberdade de Imprensa" in Público. Seguir-se-á um concurso público para preencher 250 vagas de censor?

"Alarme com jogo espírita" in Correio da Manhã. Será um novo sistema de alarme que desafia o ladrão para uma jogatana com cartas de tarot?

La niña de Bagdad

Antonio Casares

La niña de Bagdad abre los ojos en medio de la noche. Algo le impide –denso, inquietante- conciliar el sueño; es una pesadilla demoníaca que la hace regresar a la vigilia: iba por el angosto laberinto de una ciudad sitiada por la muerte, viendo el resplandor de los misiles, oyendo los impactos de las bombas sobre los edificios desolados que caían como torres de arena, rodeada de cascotes y esqueletos de casas como espectros, avanzando por el infierno de los cuerpos yertos, entre la indolencia de los objetos, oyendo el estertor de los heridos, las maldiciones de los moribundos, el negro Apocalipsis de la nada. La ciudad era un inmenso hospital, un cementerio por el que iba inerme, sin nadie que acudiese en su auxilio o escuchase sus inútiles quejas: era una muerta más entre los muertos. Entonces despertó, lívida, insomne, en la pesadilla de lo real, en la incertidumbre de la duermevela...

La niña de Bagdad tiene los ojos grandes como dos lámparas votivas que se han mirado en los espejos ciegos del Tigris y del Eufrates, los ríos sagrados de la antigua Babilonia que muy pronto serán ríos de sangre. Le han dicho que allí estuvo el paraíso, y que el lugar era Mesopotamia. Le han hablado de Lilith, un enigma. Le han contado los prodigios de Isthar, la diosa cuyo fulgor permanece en los alfanjes y en las cimitarras y en las mezquitas que aún huelen a incienso. Le han hablado de las vastas epopeyas y del gran Gilgamesh, el héroe mítico que se invoca en los libros sin tiempo. Ha soñado con Las Mil y Una Noches y ella pronuncia con fervor su nombre: Quitab alif laila ua laila. Está orgullosa de su pueblo. Sabe que no puede morir lo que es eterno, sabe que nada sabe del futuro, y vive la zozobra del presente. ¿Qué piensan los adultos de los niños? ¿Piensan quizá que los niños no piensan? ¿Se creen más perfectos que los dioses o más sabios que Aláh? Sus manos tiemblan, mientras abraza una muñeca rota, igual que si abrazara la vida sobre las ruinas de un antiguo templo. Está confusa, muy confusa, y sola, en una habitación del universo, en un rincón recóndito del cosmos, como muchas otras niñas de Irak, como otras niñas de Estados Unidos, como otros muchos niños del mundo. ¿Habrá alguno que no se sienta solo? ¿Por qué no les preguntan a los niños sobre las guerras en vez de a la ONU? ¿Qué se les enseñará en las escuelas? ¿Podrán amar la paz viendo la guerra? En la televisión ha visto cosas terribles, las ha oído abominables, ha visto a sus amigos mutilados, ha visto violaciones y matanzas, ha visto el desamor de los prostíbulos, ha visto lo que no quería ver, las tiendas saqueadas por el hambre, ha visto las escuelas destruídas y la desolación de los pupitres, las casas convertidas en cenizas, las calles enterradas bajo el polvo, los muros derribados sobre el fango, el fuego miserable del rencor, la desvergüenza de los poderosos, y todo le parece abominable. Está confusa y, más que nada, triste. Nada entiende de lo que la rodea. No entiende las razones que esgrimen los que siempre se cargan de razones. Los hombres le han quitado la alegría y ya no puede sonreír como antes, cuando era simplemente una niña como todas las niñas de este mundo.

La niña de Bagdad es tan hermosa que parece sacada de un cuento: sus ojos son dos astros de azabache, sus labios son más dulces que los dátiles, su pelo es una noche sin estrellas, su frente es una plaza con palomas, sus brazos son las alas de la aurora, sus párpados encienden los ponientes, sus palabras son miel de los desiertos, su silencio es más bello que la música, su piel es una rosa de alabastro, su rostro es un espejo de la luna, su cuello es como un ánfora de seda, sus manos son dos cuencos de agua fresca, su sonrisa es un sol al mediodía, su risa evoca el canto de los pájaros, su llanto es como un mar que nos conmueve, su mirada recuerda a los oasis, sus dedos inventaron los laúdes, su cuerpo es un poema inacabado que escribe la belleza a cada instante, su alma es más hermosa que la Tierra que los hombres pretender destruír, envilecidos por la fuerza bruta, enloquecidos por el negro oro de la ambición que no conoce límites, y el mal que se adueñado de sus almas. Quizá mañana ya no exista el mundo. Quizá se llame uranio empobrecido. Quizá se llame cáncer o leucemia. Quizá haya otro Hiroshima o Nagasaki. Quizá mañana ya no se despierte. Nunca saldará su foto en los periódicos. Nadie sabrá que existe o ha existido. Nadie dirá su nombre mientras sueña. Ni Fátima, ni Myriam, ni Zulema: un ángel con las alas replegadas. Se siente la más sola de las niñas. Además tiene hambre: hambre de paz, hambre de amor y hambre de justicia, hambre de libertad que no se sacia, y sed de luz en este mundo ciego. Ahora está acurrucada en su cuarto. No se atreve a asomarse a la ventana para mirar la noche o las estrellas, pues sabe que en lugar de ver los astros verá sólo el fulgor de los misiles y en lugar de luna sarracena que antaño podía ver desde su cama, verá una inmensa gota de sangre a punto de cubrir todo el planeta.

La niña de Bagdad llora en silencio abrazada a un ejemplar de El Corán y a la muñeca rota de la vida, mientras oye el impacto de las bombas sobre las calles y sobre sus sueños. Sin saber que, a miles de kilómetros, unos seres con apariencia humana, sentados en sus poltronas de cuero, con su eterna sonrisa entre los labios, han dado la orden de que empiece el genocidio del pueblo iraquí.

La niña de Bagdad abre los ojos en medio de la noche y, como un símbolo del dolor de todo el universo, arrodillada ante el altar del mundo, sin poder comprender tanta locura, los cierra para no ver la muerte a caballo del odio y de la guerra.

quarta-feira, janeiro 07, 2004

A partir de agora vejo só os bonecos...

... ou leio as letras gordas das primeiras páginas dos jornais, o que vai dar ao mesmo. É muito mais divertido, tendo em conta que os jornais fazem questão de tornar a correspondência entre os títulos e as respectivas notícias uma mera coincidência... Assim posso inventar a notícia que me apetecer! É perfeito! Notícias à medida e ao gosto de cada um!

Por exemplo, hoje passei por um quiosque e li, no 24 horas "Corte no pénis trama Cruz". Imaginei logo que... humm... bom... é melhor não dizer. Eu sou aquela pessoa que chumbou nos testes psicológicos do quizzilla, remember?

Afinal, talvez este sistema fosse melhor com jornais a sério. Amanhã volto a tentar.

Ontem lavei o cabelo com Clairol e não tive nenhum orgasmo.
Nem nada que se lhe parecesse!



Amigos, dêmos todos as mãos e meditemos um pouco sobre a publicidade enganosa.

terça-feira, janeiro 06, 2004

Prémios Abaixo de Cão 2003

Fomos considerados o melhor blogue, ex-equo com a Alice e o Crí­tico. Penso que não falo só por mim quando digo que a companhia dificilmente podia ser melhor.

O nosso abraço ao AdC, um dos nossos mais antigos amigos na blogosfera.
Venham de lá esses ossos!


Boufff!

Ó Alexandre, o 22 é este, não é?





Anti-quê?

Telmo Correia considera anti-democrática a posição do PS contra a revisão constitucional que a maioria tão desesperadamente persegue.

Dúvida

Por que será que quando os Mesa passam na TSF eu tenho sempre o impulso de escrever à Manuela Azevedo a avisá-la de que andam a tentar roubar-lhe a personalidade?

Não aguento mais...

... andar no Chiado e ser obrigado a ouvir pela milionésima vez a Jacinta a dizer para o baby dela ir depressa para casa. Proponho a criação de um grupo de pressão na CML - não digo lobby porque o edifício da Câmara já tem um. Exigência? Ou o Santana manda tirar aquelas colunas tiranas e nos deixa escutar a cidade ou pegamos-lhe fogo ao cabelo.




E um cartaz com o Marquês de Pombal sem cabelo não deve ser tão, sei lá, striking...

Crise na Justiça?! Mas havia crise na Justiça antes da prisão do Paulo Pedroso?!

A crise na Justiça portuguesa tem sido profundamente denunciada nos últimos anos por todos os analistas esclarecidos e informados sobre esse tema.

Cito de memória Manuel Villaverde-Cabral, no Fórum TSF de hoje. Entre outras coisas apontou também que no banco dos réus deveriam estar os responsáveis políticos e administrativos que ao longo dos anos encobriram ou ignoraram o que se passou na Casa Pia.

Ufa! Ainda há quem consiga pensar...

segunda-feira, janeiro 05, 2004

Jorge Sampaio

Eu votei nele! Hoje tenho orgulho de o dizer.

No more TV!

Eu devia ter-me mantido fiel à minha promessa de não ver mais televisão. Devia ter acrescentado, a essa promessa, a de tentar não me manter informada acerca das notícias do país. Devia ter deixado de ler jornais, de ouvir os boletins noticiosos na rádio e de navegar pelos sites noticiosos que abundam por essa internet fora.

Ainda tentei... eu juro que tentei! Mas durante a quadra natalícia, o resto da família quis ver televisão. Resisti quando olhei para o dito aparelho e vi, pela 1.543.ª vez, a Julie Andrews cantar o “da ils ára laiiiiiiiveeeee”... consegui fugir ao circo de Montecarlo... nem sequer vi o Mutti dirigir as palminhas com que o público de Viena acompanhava uma valsa de Strauss nem, tão pouco, ouvi as declarações do tal rapaz de penteado foleiro que ganhou o Big Brother (segundo consta, não sei se “declarações” será o termo apropriado).

Mas não... fui fraca! Vi as aberturas dos telejornais. Confesso. Às oito da noite, lá estava eu, com o comando do televisor nas mãos que, trémulas, hesitavam em ligar o aparelho. Depois do zapping habitual pelos 3 canais nacionais que dão notícias àquela hora, o meu reflexo foi sempre o de me certificar das horas. Oito da noite, e não três da tarde. A hora do telejornal, não a da novela mexicana mais reles. O nosso país é isto?
“Olha, já há acusação para os arguidos do processo Casa Pia... ‘pera lá, o Herman estava no Brasil... e o Pedroso também não estava cá! Que bronca... Olha, olha, o Carlos Cruz também não tem nada a ver com isto! Mas a produção de prova não se devia fazer só no julgamento? Pois, se eles não são culpados... coitados, que chatice. E agora? O que se segue? Cartas anónimas que envolvem o PR?!! E... e... o Juiz Rui Teixeira não devia ter tido o processo porque não houve sorteio??? Não, não é dia 1 de Abril... não são três da tarde... é melhor desligar a televisão, antes que descubram que o Juiz é primo da cunhada de um dos arguidos, que é uma invejosa e tem uma vizinha que até foi à Febre do Dinheiro e perdeu uma data de massa, coitadinha, porque o Carlos Cruz não a ajudou na resposta, o malandro...”

Finalmente!

O estado vai começar a penhorar os bens de quem foge ao fisco. O Restelo vai ficar vazio? E a Quinta da Marinha? E as garagens do estado vão finalmente ter os automóveis que merecem, de Maseratti para cima...?

sábado, janeiro 03, 2004

Um condutor diz-se surpreendido porque os preços dos combustíveis já subiram com a liberalização.

Ele há gente muito fácil de surpreender.

Será que é este ano qu'isto anda p'á frente?
Ou qu'isto anda p'atrás?
Ou qu'isto anda?

Desta vez, meti mesmo a pata na poça...

Compete-me vir aqui reconhecê-lo e agradecer ao Pickpocket algumas coordenadas. Realmente, passou-me ao lado um pormenorzito: a acusação está formalizada e foi com o processo dessa acusação, agora pública, que as denúncias anónimas se tornaram elas próprias públicas. De facto, há muito por esclarecer neste processo todo, disso não se pode fugir, mas reagi a quente - e mal - à sensação desconfortável e inquietante de que a esquerda não se tem escusado a fazer o jogo da direita, politizando demais o caso a partir de bases frequentemente pouco sólidas, enquanto PSD e PP assumem a sua tão querida imitação de pose de estado e ficam calmamente esperando a colheita dos dividendos eleitorais desta desorientação generalizada... que aos poucos parece querer emendar-se. Confesso, no entanto, que não tenho certezas quanto ao foco da incompetência do MP, ou seja, se o erro está no manter as cartas no processo ou antes no considerá-las irrelevantes, mas continuar por aí­ seria mera especulação, sendo eu um leigo sem acesso a informação verdadeiramente esclarecedora quanto a essa decisão.

Mas para defender um bocadinho a minha reacção precipitada, devo remeter-vos para este artigo de Helena Matos, intulado A infâmia e que começa por citar uma carta anónima, depositada no Arquivo Oliveira Salazar, sobre a professora Irene Lisboa, que, à altura da redacção desta carta, 1934, desempenhava as funções de inspectora-orientadora do Ensino Primário. Como esta existem nesse mesmo arquivo outras cartas anónimas enviadas por gente que quer ser chefe de secretaria, que deseja uma casa numa bairro económico... e crê que o melhor será denunciar os outros candidatos, acusando-os de serem da oposição, de viverem amancebados, de, sendo mulheres, se pintarem ou de qualquer outra coisa que aos autores destas missivas lhes parecesse servir os seus objectivos.
Às vezes quem escreve estas cartas não quer mais nada do que sentir-se importante, usufruir do momento em que ele, o anónimo, informa aquele homem tão poderoso sobre os outros, os conhecidos:(...)... houve até quem ganhasse o hábito de transformar as cartas anónimas numa espécie de diálogo directo com o poder. (...) É de ilusões como estas que se alimentam as ditaduras . E também boa parte desse desencanto cínico que se encontra nos líderes, sobretudo naqueles que exerceram o seu poder de forma autoritária.(...) Salazar mandava arquivá-las (...) e a leitura desses documentos constitui hoje um dos retratos mais perturbantes do paí­s que fomos e que somos.(...
)
,

para depois continuar e muito correctamente apontar que É no destinatário que se inicia o processo de separação entre o que é apenas um reflexo do ódio e da maldade e o que é a expressão de um problema, por alguém que não se considera suficientemente seguro para dar a cara e o nome por aquilo que afirma. (...) ... em alguns casos, escrevê-las aparece aos cidadãos como o único meio possí­vel para denunciarem crimes cujos autores temem. (...) Pior do que uma carta anónima sem uma linha de verdade apensa a um processo será fazer de conta que a carta anónima nunca existiu. Ou, como acontece nas ditaduras, guardá-la. Para nada ou para o que der e vier. Mais insidioso ainda, destruir umas cartas e deixar outras consoante o objecto ou a personalidade denunciada.,

e finalmente concluir que O secretismo não só não protege ninguém da infâmia como propicia o caldo de cultura ideal à multiplicação de boatos. (...) No final (do processo Casa Pia) os portugueses terão também percebido que não basta acusar. Há que provar. Que não basta achar que... Há que ter a certeza. E também terão percebido que ninguém está a salvo de falsas acusações. O que, espera-se, nos torne menos complacentes com os boatos, mais exigentes na incriminação dos seus autores, mais disponí­veis para assinarmos as denúncias que queremos fazer e, sobretudo, menos lestos a atirar as pedras da infâmia.

Gostaria muito de acreditar plenamente neste último parágrafo. Acho que todos gostarí­amos.

sexta-feira, janeiro 02, 2004

Im Herzen des Lichts

Jessye Norman tem um sulco que desce pela face esquerda, como o rasto de uma lágrima. Não consigo tirar os olhos desse sulco enquanto ela canta Zueignung. O testemunho já lhe passara pelas mãos duas vezes e nas suas mãos terminou, entregue pela israelita Noa, a nossa (?) linda Cristina Branco, a galega Uxia, uma Xamã da Mongólia - mulher-pássaro, a americana-francesa Dee Dee Bridgewater e um belíssimo Mack, the Knife, a italiana Lina Sastri e outras mulheres ali reunidas para partilharem a sua arte, a sua energia, angústias e vontades. Terminou ainda há pouco, no canal 2.

A voz, o que é?

quinta-feira, janeiro 01, 2004

Os três lados da história

Não esperem revelações aqui deste lado. Estou só a considerá-los, não necessariamente a reconhecê-los, enquanto leio este texto atordoante, postado por Vital Moreira no Causa Nossa.

Como se esperaria, as reacções a mais um caso dentro do caso têm sido céleres e seguido a linha que tão bem tem caracterizado esta novela: precipitação, nervosismo, falta de jeito, escolha de lados em vez de ponderação na procura da verdade. Vital Moreira, infelizmente, não foge aqui muito à regra. Segundo o seu indignado poste, as cartas anónimas não têm qualquer valor. Só neste caso? Ou por questão de jurisprudência passaria a ser esse o procedimento-padrão, isto é, se as cartas em questão realmente tivessem sido arquivadas ou mesmo destruídas, como defende José Miguel Júdice? É que vai ser a melhor notícia do ano para os traficantes de droga - não os graúdos, mas aqueles que correm riscos reais de captura -, uma vez que são tantas as apreensões feitas com base em denúncias anónimas. Quer dizer que a partir daqui, recebida denúncia anónima de carregamento ou transacção, a polícia não poderá nem deverá ir para o local em questão, confirmando ou não a dita denúncia. São crimes diferentes? São. Eu até considero a pedofilia um crime bem mais grave do que o tráfico de drogas, chamem-me louco.

Mas continuando a leitura da indignação de Vital Moreira, concluo que afinal as cartas até dão jeito para justificar a tese da cabala - palavra nunca utilizada por VM como significante, mas pelo texto disseminada como significado. Em que é que ficamos, então? Há ou não uma razão para o Ministério Público não ter destruído estas cartas? Afinal, podem ser indícios de que:
1 - de facto nomes como os de Jaime Gama e Jorge Sampaio estão ligados a todo este processo, ou
2 - há uma tentativa de saneamento político e social de várias figuras da área do PS, preferencialmente militantes/dirigentes/figuras mediáticas, ou ainda
3 - alguém, da área do PS ou não, tem inteligentes estratégias definidas para alimentar a tese da cabala, por forma a descredibilizar a acusação, constantemente debaixo de fogo cerrado neste ano que acaba de passar.

No fim de contas, Vital Moreira, há pelo menos três motivos para as "caluniosas denúncias anónimas" continuarem apensas ao processo. Ou está a escapar-me alguma coisa?