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sexta-feira, janeiro 30, 2004

Fácil

Tem um sorriso fácil. É curioso como uma palavra pode carregar consigo tantas ironias, tantos sentidos tão depreciativos como erróneos. Fácil. Sorriso fácil. Trabalho fácil. Caminho fácil. Vida fácil. Fácil. No mar de confusões e de extremos em que a fama é tão fácil como o despeito, a facilidade encontra-se em território minado, híbrido, perigosíssimo, perigosamente disfarçado. Mas ela sorri com a facilidade de uma criança e não de uma estrela, essa facilidade inimitável, essa facilidade a que se convencionou chamar pureza.

É também fácil de perfurar, fácil de conduzir, fácil de magoar. A sua honestidade é fácil, assim como o escorrer dos sangues das suas feridas internas. Infelizmente para ela tais feridas não seguem o caminho clínico mais comum. Nada mais simples do que feridas na pele. Fácil. Entra-se em cena, contextualiza-se ou não consoante se quer fazer teatro ou apenas chocar, conforme se quer ferir apenas os olhos ou também as almas, faz-se um corte, sangra, muito pouco ou nada, estanca-se, desinfecta-se, cobre-se, crosta, coisa feia e áspera, coisa que cai e desaparece. Cicatriz. Já está. Fácil? Não. Para ela é insuportavelmente mais duro. As guerras interiores causam baixas e dores, órfãos e viúvos, e não há chefes de estado para nos acalmar as consciências e dizer-nos que estamos do lado do bem e que o bem vencerá, não necessariamente por ter razão, mas por estar superiormente armado. A menos que esteja armadilhado, acrescenta-se uma sílaba e já quem domina fraqueja e sente a sua vulnerabilidade, é fácil.

Ela está armadilhada. Pequenas bombas vão sucessivamente rebentando, pequenos incêndios deflagram e lambem a terra e exigem a água que mesmo escorrendo para fora os vai acalmando e adormecendo. O corpo dobrado em si mesmo, os joelhos flectidos, a cabeça entre os joelhos, as mãos sobre a cabeça, tão belas são as posições de desepero profundo quando se constroem, tão infinitamente humanas porque trágicas, os maiores problemas residem em desfazê-las, é aqui que as cenas são sempre cortadas. Como é possível sair de uma posição destas e manter-se coerente com a perenidade da tragédia e do desespero, como fazer de conta que eles desaparecem, e se eles desaparecem como lidar com a sua súbita ausência, com a súbita ausência do que antes nos definiu, como é que após um choro convulsivo e desesperado aquele que agora mesmo desesperava se ergue, vai à casa de banho lavar a cara e regressa à sua vidinha? Se poucos encenadores e realizadores souberam encontrar uma solução tão convincente e poética como o próprio problema, como se pode esperar que facilmente uma mera personagem o faça?

E a verdade acaba por ser apenas uma. Vivemos sós dentro de nós mesmos e não existe fuga possível, morremos sós e não existe fuga possível, ponto de chegada para tudo, ponto de partida para tudo, ponto de ajuste de contas com a própria solidão e com o verdadeiro amor, que naquela lança as suas raízes se o deixarem, tese e antítese, a esperança dentro do desespero, as várias mortes dentro da vida que nos animam a capacidade de nos parirmos novamente, de nos reinventarmos. Ela reinventar-se-á, quando o espelho lhe mostrar a beleza trágica dessa eterna solidão que eternamente a liga a cada outra personagem que por ela passa, a cada outro solitário caminho que com o dela se cruza. É fácil.