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quinta-feira, novembro 04, 2004

Para lá do espelho

Os meus neurónios devem andar a correr, fazendo requisições e requisições de dopaminas para manter cá o Manel minimamente próprio para consumo. Ou seja, não ando enervado, não tenho gritado com ninguém, cruzei-me com pessoas de quem gosto, passei a parte mais significativa do dia a sorrir. Excelente balanço para um day after. Tentei esquecer-me de que o mundo está pendurado num arbusto, mas os olhos mantiveram-se abertos para os porquês. E é definitivo: vivo numa cidade para lá do espelho, capital orgulhosa do reino de copas. Na estação de metro do Campo Pequeno dá-se início ao passeio por mais esta província da larga Oceania - os écrans estão vazios, mas a música compulsiva a cada dia está mais alta e agressiva. Eustáquio encolhe-se sob a impertinente má qualidade do som e o cérebro tenta resistir ao entorpecimento defensivo que quer alastrar. You can run, but you can't hide, Big Brother has its own well-aimed playlist. Só apetece gritar: POR FAVOR, SÃO DEZ DA MANHÃ E ESTA MERDA NÃO TEM BOLA DE ESPELHOS!!!

O metro é um aquário. Temos tudo. Velhos novos e assim assim, cegos aleijados e assim assim de esmola feita rotina diária e sobrevivente, gente de olhos no chão, gente de olhos gentis, gente de olhos feios, gente de olhos invasores. Gente que se marimba para os avisos de que não se pode fumar nas estações de metro. Gente que vive da fuçanguice de passar à frente, empurrar, empatar, barrar saídas como se vivesse só ou o mundo só para si. Gente que se cala, gente que responde. E vários takes da mesma cena e cenas especiais. Na linha do meu olhar estão um homem e uma mulher jovens, de pé, alapados um ao outro, olhando-se, falando, beijando-se, sorrindo, cientes de que nós em volta não existimos realmente, só eles. Mais o homem que a mulher, que por um momento se apercebe de que está a ser observada e começa a dividir um pouco a sua atenção. Cá está um ponto em que o desenvolvido sexto-sentido feminino só atrapalha. Concentra-te lá na tua vida, rapariga, que te importa o que eu possa estar a pensar? De qualquer modo agora fazes parte de um plano maior, pois à minha frente senta-se um casal no início da terceira idade. Falam ao ouvido um do outro, mas não são juras de amor, senão um recurso para não terem de berrar para se ouvirem na carruagem apinhada. Momento formidável, esta diagonal entre estes dois casais. Um parece o resultado do outro, não sei é qual é a fonte qual é o produto. A mulher sentada à minha frente tem um rosto gravado de escura perplexidade, o olhar dorido, as mãos sem parar de se torcer lenta e mutuamente. Olho para as minhas mãos, são finas, como as dela, mas a pele está limpa de manchas e do azul forte das veias. Re-olho as suas - o retrato antecipado das minhas. E sorrio. São bonitas, aquelas mãos. Mais bonitas seriam se não se torcessem tanto. Ora cá está algo, se nada mais houver, que está no meu poder evitar, se não tudo, pelo menos o mais importante - que tremam as minhas mãos velhas, mas que não se torçam e serei uma velha feliz.

Passar na Catarina e no Zé para almoçar e recolher a correspondência que ainda vai para a morada antiga e que estes meus eternos vizinhos do café fazem o favor de guardar para mim. Está mau, isto. Comida boa, preços jeitosos e à uma e meia da tarde a sala vazia. A Catarina encolhe os ombros, desalentada. Quando parece que está a estabelecer-se um padrão, muda tudo. Isto está difícil para toda a gente, é a verdade, não é? E o outro ganhou as eleições. O mundo está do avesso, se bem que não creio alguma vez ter visto o direito. Acho que isto é double face.

Tempo para matar, avenida para descer a pé. Está difícil. Mais tarde lerei no Público que é na Liberdade que se respira pior em Lisboa. Cá para mim não há beco que destrone a Barão Rainha do Escape Sabrosa, mas os senhores dos medidores lá saberão. E se querem saber, faz todo o sentido que por cá se respire mal na Liberdade. Começa a parecer-me que não temos de facto muito apreço por ela, é justo que não se respire. Não vamos nós ficar mal habituados. Frente à Estação do Rossio tenho de correr a pontapé um sabujo do Clube Midas que, abusando da minha dificuldade em ao terceiro "Não" ignorado voltar as costas a quem quer que seja, quer morder-me as canelas e arrastar-me à força para um "esclarecimento sobre os produtos na área do Conforto, Saúde e Inovação [hã?]" disponibilizados pelos capatazes dos seus capatazes. Vendo o sabujo em dificuldades, o capataz ataca e tem de levar com um inquérito sobre cultura cinéfila: Já viu Os pássaros, do Hitchcock? É o que a vossa abordagem me faz lembrar. A resposta que levo é que vi o filme demasiadas vezes. Despeço-me com uma leve gargalhada amarela [sim, também as há] a pensar para comigo que pelos vistos vi o filme vezes de menos, ou nem sequer estaria a ter esta estúpida conversa.

E pela segunda vez hoje o Chiado, o Bairro, a Bica, a aldeia onde há tantos anos vivo e nunca morei. Despachadas as tarefas da tarde, reafundo-me no metro. O cinzento adensa-se e no topo das escadas rolantes, abrigado dos inconstantes aguaceiros, o violoncelista que por vezes se apresenta no décor fornecido pela Benetton do Ramiro Leão toca o tema d'A lista de Schindler. Surreal, quando me preparo para me juntar ao rebanho que se empurra nas escadas rolantes, bloqueadas a meio por um grupo de miúdas aparentemente ligadas por um invisível e enervante cordão umbilical, provavelmente feito de meias Calzedonia. O problema destas situações é que para não se ser desagradável é preciso respirar fundo. E respirando fundo inala-se o todo o fumo lançado para o ar pelas ditas meninas. Felizmente tenho um apressado que à minha frente vai resmungando "com licença" e eu só tenho de aproveitar o corredor da morte por ele aberto.

E agora aqui estou, passando despercebido à rainha de copas, escrevendo às vezes por meias palavras. Que é para me ir habituando.