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segunda-feira, outubro 24, 2005

A hipocrisia é um vício da moda e os vícios da moda passam por virtudes, Tomo II
ou
Ana Sá Lopes à presidência! Que em terra de vesgos quem tem dois olhos e um cérebro bem afinado é rei.



Visto n' A Praia
Ninguém da família vai fazer campanha
Ana Sá Lopes
Público, 23 de Outubro de 2005

Ontem, a primeira página do Expresso era dominada por uma notícia interessante: "Maria Cavaco Silva antecipa campanha presidencial do marido - One Man Show". O Expresso, que passou o "dia d" com o casal Cavaco e quatro netos, recolheu uma informação preciosa da mulher do candidato a Presidente: "Ninguém da família vai fazer campanha".
A possibilidade de desenvolver uma qualquer mitologia, política ou outra, passa por criar o efeito de "verosimilhança". Não interessa se for falso, desde que seja verosímil. A ideia de verdade não é para aqui chamada, nem nunca foi. De resto, a verdade obriga a um grande esforço de recolha de elementos e não tem lugar no tempo veloz da tomada de uma decisão política (que, como toda a gente sabe, é uma decisão que resvala habitualmente para o campo da irracionalidade, próprio da tomada de uma decisão afectiva).
É no efeito de verosimilhança, e não na velha dicotomia verdadeiro-falso, que se desenrola boa parte da acção política. Mas isto não é novo, está particularmente bem explicado nos "simulacros" de Baudrillard e, de resto, sempre assim foi, desde os primórdios da democracia romana.
A peça do Expresso de ontem é um monumento a essa "sabedoria". Não é qualquer sujeito político que põe a família a fazer campanha, abre as portas ao semanário mais vendido em Portugal, mostra os netos e as suas conversas com os netos, e consegue depois transmitir ao povo uma informação superior: "Ninguém na família vai fazer campanha". É quase comovente a ingenuidade colectiva que leva a um assentimento perante a formulação que se anula a si própria. O acontecimento revelado pelo Expresso - Cavaco a explicar aritmética aos netos: "Se o João tem sete balões e dá três à Maria com quantos fica?" e Maria a esclarecer que "se for letras é com a avó", a família fotografada feliz na primeira página - convive serenamente com a tonitruante declaração de Maria: "Ninguém na família vai fazer campanha". O acto de campanha que enuncia a não campanha pode ficar nos anais do "marketing". A mensagem que está subjacente é exactamente a mesma do famoso vídeo Dinis-Bárbara-Carrilho, com a diferença de que Cavaco Silva percebe muito mais do assunto e não leva o recato do lar para a apresentação da candidatura. Mostra-o, simplesmente, ao Expresso. "One man show", é Maria quem o diz.
A mitologia cavaquista - e a adesão popular que conseguiu durante quase 10 anos - é um dos fenómenos mais interessantes da política contemporânea portuguesa. Vinte anos depois de ter chegado ao poder com a aura de "político não profissional" e "especialista em finanças", Cavaco Silva regressa invocando a sua categoria de "político não profissional" e "especialista em finanças". É como se o hiato de dez anos em que Cavaco Silva esteve afastado da vida política activa, depois de ter sido derrotado nas presidenciais por Jorge Sampaio, tivessem o condão de apagar todo o "disco rígido" do passado profissional de Cavaco Silva enquanto político e enquanto gestor de finanças do país. Ao candidato só faltou, no Centro Cultural de Belém, vestir a toga branca e virginal com que os candidatos ao senado de Roma se passeavam na rua de modo a ser facilmente identificados. O cavaquismo nunca existiu e o disco rígido nacional, aparentemente, foi destruído por uma qualquer incapacidade do cérebro informático.


Quem quiser que esqueça. Eu não. Nem a Ana Sá Lopes. Mas já me deprime o suficiente que uma figurinha da estirpe do Cavaco seja tão consensual. Mas depois do retrato do país traçado nas últimas autárquicas, porquê esperar alguma inteligência seja onde for? Isto deve ser uma doença incurável, que ataca até os mais inesperados membros da elite político-intelectual deste país. Se é que ela existe em si, e não em meras ramificações de interesses de classe e grupinhos auto-fágicos. Acho que vou beber para esquecer, que é o melhor, já dizia a Mariquinhas. Mas esquecer só a dôr de existir neste país que gosta de viver na merda. Não quero esquecer mais nada.


Adenda: se bem que esta gentil acção de campanha do Espesso ainda tem muito que aprender com os profissionais do calibre do Georginho Dâbliú... ide ver, ide, e riam enquanto conseguirem não pensar no que estas provas descaradas significam relativamente a tudo aquilo que nos é dado a engolir nos noticiários.